MIRZA, NO PRIMEIRO
CÍRCULO DOS MUNDOS ELEMENTAIS, detém um Mundo Interior. Nele habitam os Guardiões
do Pergaminho de Sher Mor, conhecidos pelo nome coletivo de "Hudayon".
Concebido para receber
as entidades vindas da imemorial Elendil, este é um planeta de muitos povos.
No Mundo Interior vive a raça élfica branca e a vermelha. Ali, os guardiões
têm a amizade dos elfos conhecedores de seu poder, e o medo dos guerreiros
vermelhos, como a segunda raça é conhecida. Mesmo estes não são unidos entre
si e vagam em grupos ou isoladamente como andarilhos através deste mundo.
Os que se uniram
formaram grupos temidos pelos elfos brancos por saquear e destruir suas vilas
ou campos de cultivo. Agora o tempo parece correr e a notícia da batalha futura
contra Dahal se espalha. Todos sabem que o jovem imperador Anisuu conseguiu
tomar o poder de Ruvak e partiu para se preparar em Ank-Djahar, a Torre do
Conhecimento. Nessa guerra os elfos vermelhos terão de decidir de que lado
lutarão e muitos já escolheram ficar com a escuridão...
Existe uma torre
solitária no Mundo Interior, construída dentro de uma profunda garganta, conhecida
como Torre do Silêncio, pois daqueles que ali adentram não se houve mais a
voz. É fria, triste e vazia de sons, nenhum deles ali repercute, tendo um
encantamento que impede que se ouçam os gritos de dor ou os pedidos de ajuda.
No interior de suas celas, também não se ouve os sons da tortura e da morte
e é isso que oprime os que aguardam trancafiados seu destino... não se ouve
nada... não se sabe nada.
A Torre
já possuiu muitos senhores vermelhos, mas hoje ela é de Rorr-Ma-Hok, o único
elfo que conseguiu manter e governar um grande grupo de guerreiros, muito
disso se deveu ao fato de ser um mestre em magias envolvendo venenos. Daí
o significado de seu nome no dialeto antigo: "Grande Serpente". Hoje a Torre
é sua e seus prisioneiros são poucos, mas escolhidos cuidadosamente, principalmente
aquela que caminha pela primeira vez entre suas paredes, a pedido de seu senhor...Dahal.
O caminho é escuro
e o medo não deixava fixar detalhes, mas não há o que guardar na memória -
as paredes são duras e ásperas: quem esbarra nelas, ocasionalmente se fere;
a luz é pouca e não existem objetos. Ela caminhava assustada, sendo empurrada
por braços fortes ou arrastada por mãos grosseiras que comprimiam seus braços
delicados como ferro machucando um galho tenro de árvore. É pequena e jovem,
sua túnica cor creme é simples e nada mais leva consigo além da roupa do corpo,
mas o que Rorr-Ma-Hok deseja da pequena elfa está em sua mente, pois suas
ordens são bem claras: destruir os guardiões para obter o Pergaminho de Sher
Mor. Depois
de alguns segundos assustadores de caminhada uma porta de ferro assomou como
uma aparição diante de seus olhos. Era antiga, pesada e imensa, mas abriu-se
com tal leveza e rapidez que ela mal teve tempo de vê-la fechar-se atrás de
si, assim que foi arremessada para dentro da cela. Não ouviu frases ameaçadoras
ou risos de escárnio, nada. Parecia que até seus captores estavam encantados
com o silêncio da torre, porém não era assim - eram realmente deferentes,
não como os elfos vermelhos que já vira a roubar ou a arranjar brigas nas
vilas. Eram silenciosos, frios... assustadores, estes serviam a Rorr-Ma-Hok
e a Dahal.
A pequena Amandril
sentou-se de lado no chão e juntou seus longos cabelos, alisando-os com os
dedos enquanto tentava se acalmar. Ainda arfava nervosamente quando começou
a observar a cela. Era relativamente grande e muito vazia. Apenas uma abertura
quadrada na espessa parede de pedra cumpria a função de janela onde a luz
entrava para dar um pouco de alento aos encarcerados. Foi então que olhou
para trás e o viu parado, em pé, diante do único catre a observar de braços
cruzados a luz da manhã.
servo qualquer. O jovem que parecia totalmente indiferente à sua presença
usava uma Tartamut, a lendária tatuagem de dragão. Diferente das Sartamut
- tatuagens místicas, executadas pelos duenens(1) que produziam efeitos mágicos
de acordo com o tipo de desenho executado, permanecendo apenas por pouco tempo
- a Tartamut era uma tatuagem perene que só desaparecia do corpo de seu senhor
após sua morte. Adquirir uma Tartamut também não era tarefa fácil, contudo
era coisa extremamente desejada dentro da cultura dos elfos vermelhos e tinha
a ver com dragões...
Era sabido que
a cada mil anos dragões trocavam suas garras. Para tal eles subiam nas mais
altas montanhas e procuravam tocas bem profundas e escuras. Ali eles arrancavam
todas as suas garras e desse doloroso processo deveriam nascer outras mais
poderosas. Nesse período o dragão ficava muito mais agressivo, pois além de
estar mais vulnerável sem sua maior defesa, não possuía meios de caçar para
alimentar-se. Aqueles que conseguiam passar por tal transformação rejuvenesciam
para viver com força por mais mil anos.
Entre os elfos
vermelhos conseguir Tartamut era um ritual de passagem da infância para a
maturidade. Muitos jovens subiam as montanhas à procura da toca, mas pouquíssimos
voltavam com a tatuagem, pois era muito difícil encontrar os lugares certos,
ou muito difícil voltar vivo se houvesse um dragão furioso e sem garras lá
dentro. A maioria aceitava como ritual a própria jornada de ir e voltar, afinal
subir as montanhas freqüentadas por dragões já era um risco enorme. No entanto,
aqueles que encontravam uma toca ocupada e conseguiam a proeza de pegar uma
única garra que havia sido descartada a menos de um dia tinham uma recompensa
fabulosa em troca: a Tartamut surgia por si só no corpo daquele que portasse
a garra e aos poucos se firmava na pele como uma marca permanente. Quanto
maior e mais complexo o desenho, mais velho e forte era o dragão do qual se
conseguira a garra. Além disso, a tatuagem dava uma invulnerabilidade física
e da garra era feito um punhal que se dizia possuir poderes mágicos. E era
exatamente esse punhal que estava preso à cintura do jovem prisioneiro: um
punhal feito de uma garra de dragão.
Pelo tamanho
da tatuagem, Amandril calculou que ele conseguira a garra de Murtajad, o dragão
que vivia naquele mundo há mais de cem mil anos.
Depois de segundos
observando o jovem em pé, ele finalmente descruzou os braços e virou-se para
observá-la. Mayavashi olhou cuidadosamente a jovem elfa que ainda estava sentada
no chão e concluiu depressa que deveria possuir algum poder interessante,
pois de outra maneira já teria sido destroçada pelos torturadores da torre.
- Olehjá(2)
... - falou sem nenhuma expressividade no rosto, mas com toda ironia na voz.
Amandril o fitou e foi lentamente para um canto onde se sentou e ficou abraçada
às pernas, tentando permanecer tranqüila. Quanto tempo ficaria ali? O que
fariam com ela? Morreria?
- Kenamatsú(3)
...me proteja... - duas lágrimas escorreram por seu rosto. - Que curioso ele
colocar você comigo... - ela abriu os olhos para ver o elfo que agora estava
sentado no catre, com as costas apoiadas na parede e a fitava fixamente.
- Quem? - ela
ficou um pouco confusa.
- Rorr-Ma-Hok...
será que ele crê que dividir a cela comigo seja uma experiência aterradora?
Talvez imagine que ficará apavorada de ficar comigo aqui. - sorriu
um pouco.
- Deveria?
- encolheu-se um pouco, instintivamente.
- Diga-me
você. Pareço assustador?
- ...não...
- ela o observou um pouco - Como ele o pegou? Você usa Tartamut.
- Uma armadilha
do sono, a magia favorita daquele animal traiçoeiro. Só assim me pegou e colocou
aqui. - ela sabia do que se tratava, pois se descuidara e também fora pega
do mesmo modo.
- Ele...
não gosta de você?
- Ele tem
medo de mim, por isso colocou você aqui, comigo. - sorriu de novo
- Deve
achar que inspiro medo a você como eu inspiro medo a ele.
- Por que
ele... o teme...? - perguntou cautelosamente e ajeitou-se no canto da cela,
cruzando as pernas.
-
Pelo fato de ser quem sou.
- E...
quem é? - criou coragem para perguntar.
- Sou Mayavashi,
filho do guerreiro Ru-Dar-Djir, protegido da Tartamut de Murtajad e senhor
do punhal de "Um pedido". Lutei em cinco guerras tribais e matei trezentos
guerreiros.
Nunca tinha ouvido
antes o modo como um elfo vermelho se apresentava, eles não se davam ao trabalho
de fazê-lo com os que não eram de seu grupo, por serem considerados inferiores,
mas este se apresentara a ela, embora a última parte tenha sido um pouco desagradável.
- ... matou trezentos...?
- murmurou baixinho.
- Trezentos tolos que
tentaram pegar meu punhal, a maior parte morreu ao tocá-lo. - sorriu de lado
e quase riu.
- Tocá-lo? -
Só o senhor do punhal pode tocá-lo, pois fui eu que o conquistei. Se alguém
tocá-lo, morre. Por esse mesmo motivo só eu posso fazer o pedido.
- Se pode
fazer um pedido, porque não pede para sair daqui?
- ... -
ele ficou quieto e inclinou-se um pouco para frente - ... se tivesse um único
pedido, no qual pudesse pedir qualquer coisa no mundo, gastaria esse pedido
com uma simples fuga? Olhe para mim - abriu os braços com certa vaidade juvenil
- Sou jovem e invulnerável. Posso encontrar um meio de fugir a qualquer momento,
meu pai foi morto por Rorr-Ma-Hok que envenenou suas tatuagens de Sartamut
e agora, ele mesmo se cobre com elas pedindo proteção e torcendo para que
eu use o punhal justamente para isso que você falou. Ele deseja que eu gaste
o meu único pedido e assim perca esse valioso trunfo. - suspirou cruzando
os braços por trás da cabeça - Acredita que desejo seu posto, mas não tenho
pressa, agora não há nenhum lugar em especial para ir, então fico por aqui.
Quando chegar o momento certo eu irei embora e aí vejo o que faço primeiro.
Compraz-me a idéia de que Rorr-Ma-Hok possa viver aterrorizado pela sombra
de minha vingança...
- Já está se
vingando. - ela concluiu.
- Exato. Gasto
meu tempo pensando num pedido para fazer a esse punhal.
- Existe um limite?
- ela se assustou com as possibilidades daquele poder.
- Alguns... se isso
a alivia. - zombou - Ele não pode gerar vida do nada e nem poder infinito,
também não ressuscita ninguém. Apenas pode gerar grande poder, como um encantamento
de magníficas proporções. Eu posso até pedir algo tolo, como um prato de comida.
Nesse minuto
o estômago de Amandril roncou um pouco e ela encolheu-se sem graça.
- Isso viria
bem a calhar...
- É. - ele riu
e deitou-se no catre
- Aqui não
servem refeições regulares, se é o que deseja saber.
- Há quanto tempo
está aqui?
- Um ano.
- Um ano sem
comer nem beber!? Como ainda está de pé?
- A Tartamut me mantém.
- silenciou-se. Amandril compreendeu porque Rorr-Ma-Hok o temia. Era um jovem
poderoso e de sangue frio, um rival assustador. Infelizmente
ela não tinha Tartamut para se manter, então buscou no bolso de sua túnica
um punhado de folhinhas e cuidadosamente mascou uma em silêncio.
- Sunoni(4) ...
- ele murmurou com um sorriso nos lábios, ainda de olhos fechados. -...
com... como sabe!? - quase engasgou, assustada.
- O cheiro. Eu
comi muito sunoni quando era criança. Num grupo de guerreiros só come quem
é o mais forte. - calou-se novamente. Ficou pensando nele enquanto o observava
dormir sem se importar com sua presença. Deveria ter tido uma infância dura
e sem muito carinho... talvez nenhum, contudo parecia gentil ao falar com
ela, ou talvez fosse insignificante demais para ele importar-se em ser cruel.
Deitou-se no chão duro e acabou dormindo de exaustão. O silêncio imperava...
Dois dias se
passaram.
Senhora chuva
que cai agora.
Senhora chuva
que está lá fora.
Por que te zangas
e te irritas da
mesma forma
que te alegras?
Eu também choro,
eu também zango,
mas minha chuva
é pequenina
perto das gotas
que caem, suas.
Senhora chuva
que cai agora.
Senhora chuva
que está lá fora.
Por que te zangas
e te irritas
da mesma forma
que te alegras? (5)
A voz de
Amandril ecoava solitária enquanto via a chuva cair pela janela sem poder
tocá-la. O encantamento da prisão não permitia estender a mão para fora. Havia
acordado sobressaltada, aliás, sempre acordada sobressaltada nas últimas quarenta
e oito horas. Ninguém veio, ninguém lhe disse nada e até mesmo o jovem Mayavashi
permanecia a maior parte do tempo quieto.
Cantava
aquela melodia para acalmar seu coração, como se fingisse estar em outro lugar,
num lugar bem melhor. Embora sunoni a mantivesse, a falta de água já começava
a dar sinais de desgaste em seu corpo. Elfos não tinham um sistema digestivo
igual ao dos humanos e as toxinas e substâncias excedentes dos alimentos eram
eliminadas pela pele, através do suor. A água ingerida funcionava como um
purificante - sem ela, Amandril sofria um lento envenenamento do organismo.
- Está
com sede? - ouviu a voz de Mayavashi e virou-se para vê-lo sentar-se no catre.
- Sim.
- Então não cante, vai se desgastar mais. - falou quase numa ordem.
- Desculpe.
- sentou-se no chão e dobrou as pernas abraçando-as contra o corpo.
- Por
que a pegaram? -... - olhou-o e permaneceu quieta.
- Ah...
entendo. Deve ser algo muito importante, não? Algo que Rorr-Ma-Hok que saber...
faz bem em não falar. O silêncio aqui é relativo. - olhou para a porta, pensativo.
- Como
assim?
- A torre
possui duas magias, a do silêncio e a da carceragem. A primeira faz com que
nada possa ser ouvido fora ou dentro das celas, a não ser pelos que estão
nesses lugares. Contudo somente o carcereiro quebra a regra. - explicou quase
como se falasse sozinho - Quando um senhor toma a torre, pode nomear homens
de confiança como carcereiros. A regra é simples: ninguém ouve nada fora desta
cela... a não ser que do outro lado da porta esteja um desses homens, eles
podem ouvir o que falamos aqui dentro.
- Quer
dizer que pode haver alguém lá fora nos ouvindo?
- Sim.
Além disso, uma vez dentro desta cela impera a magia da carceragem, você só
pode sair de dentro dela acompanhada de um carcereiro... vivo, é claro, senão
eu já teria saído. - sorriu zombeteiro.
- E imagino
que nenhum deles entrou aqui desde que você foi preso, estou certa?
- Exato.
- e voltou a calar-se.
- Já podia
ter usado o punhal para sair mesmo com essa magia, não?
- Já falamos
disso.
- Se saísse,
mataria Rorr-Ma-hok? - Talvez.
- Por
que matou seu pai? - perguntou inocente. Mayavashi estreitou os olhos com
curiosidade e deu de ombros.
- Por
que faria isso? Elos de sangue não significam nada para nós. Só citamos nossos
pais quando nos apresentamos por uma questão de hierarquia guerreira.
- Eu sei...
elfos vermelhos não são como nós.
- Não.
Estamos um salto atrás de vocês e um na frente dos elfos negros... não é assim
que aprendem? - ironizou
- Não
possuímos a mesma capacidade emocional. Simplesmente não sentimos com a mesma
intensidade que vocês... aliás, mal sentimos.
- Mas
você parece odiar Rorr-Ma-hok. - concluiu.
- Ódio
é bem parecido com indiferença emocional para um elfo vermelho, mas o resto...
o resto é supérfluo. - calou-se por fim e ficou de costas no catre indicando
para Amandril o fim da conversa.
- Amandril.
- murmurou apresentando-se a ele.
- Como?
- ele olhou-a por sobre seu ombro.
- Meu
nome é Amandril (6) .
- Eu não
perguntei. - murmurou baixo e voltou o rosto calmamente. Corou
de vergonha por ter ouvido aquilo. Pareceu-lhe tolice tentar apresentar-se
depois de dois dias para um prisioneiro que era quase indiferente a sua presença.
Ela ficou de pé e voltou a olhar para a chuva.
Cinco dias depois.
Mayavashi
observava Amandril dormindo no chão. Parecia bem pálida e as olheiras começavam
a surgir, os primeiros sinais da desidratação. Não demoraria a surgirem manchas
de necrose na pele rosada anunciando a morte causada pela intoxicação por
falta de água. Era uma morte lenta e imaginou o que o velho guerreiro planejava
com aquilo. Nada de torturas ou ameaças de morte... resistiria a todas elas
pelo visto. O plano era mais macabro.
Num segundo
teve a impressão de que logo descobriria a verdade ao ouvir a porta finalmente
abrir-se com um rangido grotesco após todos aqueles dias. Amandril acordou
sobressaltada e foi depressa para um canto enquanto Mayavashi observava sentado,
o carcereiro entrar. Não era qualquer um, aquele era Mojad, o guerreiro de
confiança de Rorr-Ma-Hok e sua aparência fazia jus a sua fama de terrível,
não por ser forte, mas justo o oposto: sua pela era pálida e acinzentada e
tinha olhos um tanto saltados numa face encovada e longa. Vestia-se com uma
túnica suntuosa e incomum aos elfos vermelhos, como se fosse um rei, talvez
para cobrir o corpo, magro, ossudo e cheio de marcas de chicotadas do tempo
em que fora escravo de muitos outros guerreiros. Conseguira chegar aonde chegara
por saber demais: graças as suas informações Rorr-Ma-Hok matara todos os seus
rivais e reinava absoluto, até agora.
Mojad
era frio e muito paciente e se estava ali, coisas horríveis podiam acontecer.
Mayavashi observou impassível surgirem outros guerreiros tatuados que se colocaram
ao redor dele para impedir a aproximação do jovem. Apesar desse cuidado a
conversa que se seguiu era apenas entre ele e Amandril.
- Como
se sente, Oracular?
- Ainda
estou viva. - falou pouco olhando-o e tentando parecer calma.
- Fico
feliz que esteja viva. Não se pode dizer o mesmo de outros... - olhou para
as mãos como se procurasse alguma marca e depois a fitou
-... alguns
estão moribundos, não agüentam torturas por muito tempo. -
Do... do que está falando...? - sentiu seu sangue gelar e deu um passo a frente.
Na luz da abertura da parede parecia estar mais pálida ainda.
Mojad
tirou uma pequena bolsa de sua túnica e a jogou no chão de forma tão displicente
que fez seu conteúdo sair parcialmente desta. O que se viu fez Amandril gritar,
horrorizada e sentar no chão tentando esconder o rosto.
- Sei
que não vai falar onde eles estão. Então providenciaremos outros que falem
no seu lugar. Isso é só o começo do que fazemos com pessoas teimosas. - virou-se
para sair assim que a porta se abriu e parou um segundo para admirar o sofrimento
da jovenzinha que chorava em estado de choque. - Você não ouve os gritos daqui,
não é? Talvez eu possa providenciar para que ouça. - sorriu pensativo e saiu
por fim.
- Não!
Nãoooo!!!! - ela lançou-se na direção da porta e a esmurrou tentando sair,
caindo por fim, sem fôlego. Gritou até perder a voz. Mayavashi
caminhou silencioso e recolheu na bolsa os dedos extirpados dos pés que estavam
espalhados no chão. Observou friamente aquilo e depois se agachou bem perto
dela que escondeu o rosto para não ver o mórbido conteúdo.
- Eles
fazem isso o tempo todo. Estão tentando aterrorizar você.
- Eles vão pegar outros, ele
disse... eu preciso sair daqui. Preciso protegê-los. - murmurou num fio de
voz.
-... -
Mayavashi calou-se. Percebeu que ela estava tornando-se instável e fácil de
falar coisas que não deveriam ser ouvidas por um carcereiro. Voltou a sentar-se
no catre e jogou a bolsa num canto atrás do mesmo para não ser mais vista.
Mojad parecia saber bem como aterrorizar, tivera longa experiência disso em
sua própria pessoa. Agora torturava a jovem com possibilidades. Ela nunca
saberia se alguém inocente estava ali, sendo mutilado, nunca saberia se esse
alguém falaria o segredo, seja lá qual fosse. Isso a enlouqueceria muito antes
de morrer por intoxicação. Mayavashi só sabia de uma coisa - o que Amandril
sabia era grandioso, pois Mojad a chamara de Oracular. Isso significava que
ela tinha acesso a lugares e magias desconhecidas pelos elfos vermelhos...
mas ali, todas elas eram inúteis, dentro daquela rocha dura e seca que era
a cela deles.
Ela adormeceu
no chão e delirou toda madrugada murmurando coisas sem nexo. Mayavashi apenas
olhava e não compreendia o que a fazia guardar com tanto zelo esse segredo.
Quando
os primeiros raios de sol se ergueram no horizonte, ele já estava acordado
embora ainda permanecesse inerte no catre, como se ainda estivesse dormindo.
Contudo estava alerta. Nas duas últimas horas ela acordara e vez ou outra
andava pela cela murmurando baixo ou olhando pela tosca janela. Estava em
seu limite nervoso, era óbvio que não compreendia o jogo de Mojad. Era inocente
das maldades dos que sabiam esperar. Mas ele também sabia esperar e não foi
surpresa quando sentiu a jovem se aproximar sorrateira perto de seu corpo
e estender, hesitante, sua mão para aquele objeto de poder tão cobiçado.
Mayavashi
se moveu tão depressa que ela caiu sentada com um grito miúdo ao sentir a
pressão que o forte punho fazia ao segurar seu pulso fino. Era um grilhão
de aço que a impedia de mover-se.
-Está
tentando se matar!? - os olhos penetrantes dele a fuzilaram e Amandril começou
a chorar descontroladamente.
- Eu preciso
dela! - Não pode fazer um pedido, o punhal a mata se tocá-lo. - ergueu-se
e ela segurou-se nas botas dele enquanto implorava.
- Então
o faça por mim! - gritou.
- Não
adianta fugir, eles pegariam outros. - falou num tom de lógica frieza que
fez Amandril saltar do chão e bater em seu peito com sua pouca força. Ele
não se mexeu.
- Não
entende!? Eu preciso ir, preciso protegê-los! - Está tentando proteger aqueles
que sabem o segredo?
- Não!
- ela bateu nele e Mayavashi segurou suas mãos fracas impedindo-a de continuar.
Ela caiu sobre seu peito chorando convulsivamente
- Estou
tentando proteger todos! Eles precisam de mim! Eles não têm como se defender...
eu preciso ir até o santuário! Eu posso! Eu posso protegê-los lá!
- Pare
de falar... podem estar ouvindo.
- Eles
sabem! Eles sabem! - num gesto rápido o elfo deu um tapa no rosto dela e Amandril
caiu com um lamento, parando de falar. Ela tinha de parar e ele mesmo não
entendeu porque tinha feito aquilo; porque se importava que ela guardasse
o segredo. Talvez não quisesse que Rorr-Ma-Hok tivesse mais essa vitória,
talvez simplesmente... quisesse proteger algo também!
Abaixou-se
e pegou a jovem nos braços, colocando-a sobre o catre. Estava fraca e já haviam
marcas escuras na sua pele. Ela fechou os olhos respirando com dificuldade.
Amandril queria proteger o segredo dentro de um santuário? Que tipo de magia
ela podia fazer lá que não poderia fazer em outro lugar? Provavelmente era
isso que a fazia ser uma Oracular; conhecer uma magia rara que poucos sabiam.
Talvez só ela soubesse que o segredo estava em perigo, mas quem eram esses
que estavam em perigo? Observou-a
virar-se devagar para a parede e permaneceu ali murmurando alguma coisa como
havia feito por toda a madrugada. Imaginou se ela não estava enlouquecendo.
Seus pensamentos
foram interrompidos pela abertura abrupta da porta e a entrada de Mojad cercado
por sua muralha de guerreiros que agora ostentavam diversas Sartamut de combate.
Amandril virou o rosto para vê-lo, mas sua vista estava turva e foi com surpresa
que sentiu o braço de Mayavashi a erguê-la para que se sentasse. Ele queria
poder ter confirmado suas hipóteses, mas parecia que o golpe final vinha cedo
demais.
- Está
na hora de partir, Oracular. Rorr-Ma-Hok já tem o que quer e você se tornou
desnecessária. Mas não convém que fique aqui com seu... companheiro de cela.
- sorriu friamente para o jovem guerreiro - Pode ser que ele resolva atender
ao seu pedido. - fez um gesto e um dos guerreiros a puxou, carregando-a como
se fosse uma boneca de pano. Ela tentou protestar, mas estava muito fraca.
- ...não...Mayavashi...por
favor...faça o pedido...! - murmurou em desespero - ...eles vão ser destruídos...!
- Isso
não me interessa. - falou num tom seco que a fez calar-se assustada. Sentou-se
calmamente no catre e voltou o olhar para a janela.
Os guardas
a levaram para fora e Mojad o fitou com curiosidade antes de sair.
- Seria
um grande pedido, não...? - Mayavashi murmurou sem olhar para o carcereiro
que parou de costas ao ouvir aquilo. Mojad ergueu o rosto um pouco para o
alto e depois saiu.
Quando
a porta se fechou novamente Mayavashi estava ali, sozinho como há dias atrás,
como a um ano inteiro. O silêncio... mas agora ele o incomodava. O que aconteceria
no fim? Amandril morreria? Com certeza. Estava fraca demais... a não ser que
lhe dessem água...a não ser que lhe dessem esperança.
Seus pensamentos
foram pegos por um sobressalto, mas antes que pudesse concluir algo mais,
notou surpreso o que estava colocado no canto do catre, próximo à parede;
três folhas de sunoni cuidadosamente dispostas uma sobre a outra.
"Talvez
as três últimas", ele imaginou e pegou-as com cuidado. Por que as deixou?
Sabia que não precisaria mais delas? Sentiu o cheiro familiar e sorriu um
pouco. Há muito tempo deixara de mascar sunoni depois que conquistara a Tartamut.
Colocou devagar a primeira folha dentro da boca e assim que o fez algo surpreende
aconteceu. Teve
a impressão de ter levado um choque, pois num segundo não estava mais na cela
da Torre do Silêncio, estava caminhando por uma trilha num passo mediano,
sentiu o ar fresco da mata, o perfume das flores e o cheiro de terra úmida.
Conhecia aquele lugar... era uma trilha muito antiga que levava até uma pequena
construção aparentemente vazia no coração daquela floresta...
"Aqui
fica o santuário."
Um arfar
profundo o trouxe de volta e então se deu conta que a folha desaparecera em
sua boca. Era um encantamento! Amandril lhe deixara um encantamento da memória!
Então era isso que a jovem havia feito nas últimas horas, murmurara um encantamento
nas pequenas folhas!
Olhou
para as outras duas folhas. Que legado ela lhe deixara!? Três fragmentos de
suas memórias, no primeiro ela mostrava o caminho para o santuário. E o resto?
Ela lhe confiou um segredo muito grande quando ele nada lhe dera em troca.
Um impulso novo o fez segurar a segunda folha e colocá-la sobre a língua.
Novamente o choque, e ele foi transportado para o interior de uma torre muito
iluminada. Ao seu lado viu um elfo de aspecto muito idoso a falar-lhe, então
compreendeu que estava vendo tudo com os olhos de Amandril e não poderia interferir,
só ouvir.
-Vê minha,
criança, este é um santuário muito antigo. Foi feito do mesmo modo que Ank-Djahar.
Parece pequeno por fora, não? - ele sorriu.
- Sim... - Mayavashi
ouviu o riso cristalino e imaginou que Amandril devia ser bem menor naquela
lembrança, pois seu timbre de voz era quase infantil.
- Aqui se pode
executar o encantamento Hojar. Aquele que libera nosso corpo dos freios de
poder com o qual viemos ao nascer. Quando se faz isso nosso corpo pode liberar
toda a energia de nossa alma de uma vez para fazer um grande encantamento...
-... mas saiba
que fazer isso é um ato sem volta, pois quando nos libertamos dos freios,
nosso corpo físico se desfaz fundindo-se com a energia e deixamos de viver
aqui.
- Nosso corpo
desaparece?
- Partimos daqui,
mas seguimos a jornada. - ele sorriu para a jovenzinha - Por isso é uma magia
que só pode ser feita em momentos muito graves e quando não há mais saída.
Muito poucos sabem de sua existência; somente os Oraculares e agora você,
pequena aprendiz...
" Essa é a magia"
Mayavashi
voltou à cela e compreendeu por fim o que Amandril podia fazer. Ela estava
disposta a morrer, mas não ali... ela queria morrer para proteger algo ou
alguém. Olhou para a terceira folha e fechou os olhos ao colocá-la no interior
de sua boca.
A paisagem
que viu a seguir era magnífica! Um lugar lindo com uma longa trilha cercada
de flores e árvores muito grandes. O ar era tão fresco que ele não pôde deixar
de sorrir. A única vez que teve aquela sensação de liberdade foi quando subiu
a montanha atrás de Murtajad - era tão alto e tudo era tão bonito dali de
cima. Ali também era bonito e havia muita luz... no início imaginou que era
porque deveria ser um dia claro, mas logo notou que a luz aumentava a medida
que caminhava e percebeu que atrás das milenares árvores daquele bosque havia
um outro grupo mais antigo e então ele compreendeu... a luz vinha das árvores!
Sim...
a medida que caminhava as via surgindo ao seu redor em número cada vez maior,
altas, frondosas e delicadas, mas mais que tudo, luminosas. Parecia haver
luz dentro de seus corpos, como se fossem feitas de matéria pouco densa e
suas folhas brilhavam. Tão belas, tão fortes... tão delicadas. Era a coisa
mais bonita que já vira em sua vida!
"É aqui que
estão Hudayon"
Piscou
ao ver-se novamente na cela. Ficou sentado por um longo tempo até compreender
tudo o que Amandril lhe dera. Ela lhe mostrou o caminho do Santuário, a magia
Hojar e o lugar onde ficavam os Guardiões do Pergaminho de Sher Mor! Mas ela
lhe dera algo mais... lhe dera um voto de confiança, algo que ele desconhecia.
Olhou
para fora e percebeu que havia passado certo tempo, uma ou duas horas talvez.
Amandril ainda estaria viva? Mayavashi ergueu-se devagar e sentiu-se um tanto
confuso; então o segredo era esse!? Ela podia proteger os Guardiões do Pergaminho
de Sher Mor, mas... ninguém sabia onde estavam...ou Rorr-Ma-Hok sabia!?
Talvez
ele soubesse, mas aquela jovem tinha o poder de protegê-los, se necessário.
Se a capturou porque não a matou? Haveria outros... então era isso que Mojad
queria dizer? Que pegaria todos que soubessem onde estavam os guardiões. Com
certeza seria algo difícil, mas não muito impossível na mente de uma prisioneira
aflita e doente. Não era uma tortura sem propósito. Eles estavam levando a
Oracular ao limite do desespero para em seguida dar o golpe fatal.
Talvez
o que Rorr-Ma-Hok quisesse saber de fato era onde estava o santuário e não
onde estavam os guardiões como pareciam fazer Amandril acreditar. Destruindo
o santuário ele teria o caminho assegurado para destruir Hudayon e obter o
Pergaminho de Sher Mor... para Dahal. Ninguém poderia protegê-los. Mas como
isso era possível? Como os guardiões que detinham tão grande poder, poderiam
ser seres tão frágeis que precisassem da proteção de alguém... de uma jovenzinha
como aquela que ele vira definhar na cela? Tanta força e tanta delicadeza
juntos eram algo inesperado em seu mundo! Que tipo de seres eles eram afinal?
Elfos, humanos ou elementares menores? Sim,
Mojad a levara de seu convívio e agora ele compreendia tudo. Com certeza eles
a manteriam viva até que, de algum modo ela escapasse e os levasse até onde
queriam chegar verdadeiramente: ao santuário. Ela ingenuamente os levaria
ao único lugar que poderia salvar os guardiões e ali a matariam. Ele poderia
pensar em algo assim... Mojad e Rorr-Ma-Hok também... Amandril não.
Com certeza
lhe dariam água, lhe dariam esperança.
A haviam
tirado da Torre do Silêncio e agora estavam novamente nas florestas e trilhas
que ela conhecia. Fora posta num cavalo e segundo as ordens que ouvira os
guerreiros receberem, ela deveria ser vigiada até tudo terminar. Sentiu seu
sangue gelar. Rorr-Ma-Hok estava a caminho dos guardiões e ela tinha de encontrar
um meio de fugir, mas estava fraca demais. Será que Mayavashi encontrara as
folhas? Será que ele vira o que ela lhe deixou... estaria disposto a ajudar
depois do que viu?
Estavam
parados há um bom tempo e não havia sinal de nenhum riacho por perto. Fora
colocada próximo a uma árvore onde quatro guerreiros a vigiavam sem cessar.
Foi então que um deles chegou perto e tirou um recipiente para encher uma
cuia de beber com água. Para seu assombro, a estendeu para ela! Olhou-o com
desconfiança, mas viu o elfo vermelho beber do recipiente sem se importar
com sua presença. Será que imaginaram que estava tão fraca que não poderia
fazer nada com aquilo?
Inclinou-se
devagar e bebeu dois goles. A garganta estava tão travada que sentiu dor enquanto
o líquido escorria, mas o efeito foi maravilhoso. Era como se tivesse saciado
uma fome de mil dias. Sabia que não era o suficiente para ficar bem, mas era
o que bastava para correr... e para fazer um pequeno encantamento. Olhou para
o resto da água e murmurou baixo algumas palavras. Foi o bastante...
Mayavashi
olhou para seu punhal. Ele só tinha um pedido a realizar, mas seu poder letal
duraria enquanto ele vivesse. Ninguém nunca tocaria aquela arma se morrer.
Poderia se virar muito bem sem o pedido...
A porta
rangeu e ele ergueu o rosto para ver algo que seria improvável de acontece
há dias atrás. Mojad entrou sozinho: o carcereiro veio só e a porta fechou-se
atrás dele. O jovem guerreiro nem se mexeu e o carcereiro parecia muito tranqüilo
diante de seu antagonista.
- Impressionante...
Tartamut o mantém com perfeição. Quanto tempo?
- Um ano.
- respondeu tranquilamente.
- Não
acha que está perdendo seu tempo aqui?
- Se quiser
me mandar embora não vou reclamar. - zombou.
- Então
não usaria seu punhal para fugir daqui. É mais sábio do que parece.
- As coisas
mudam... - caminhou até a janela e ficou olhando através dela.
-É verdade.
Veja Rorr-Ma-hok... - ele caminhou devagar e parou atrás de Mayavashi, embora
fosse magro era mais alto que o jovem -... em poucas horas ele vai ter um
grande trunfo nas mãos e seu senhor Dahal lhe será imensamente grato. Isso
significa muito poder em troca.
- Poder
suficiente para não ter mais medo de mim? - sorriu com a idéia.
- Sim...
então seria bom ficar do lado certo.
- Entendo...
- Mayavashi se virou e fitou aquele rosto longo e descorado.
Amandril
corria com todas as suas forças e a floresta agora passava como um borrão
verde ao seu redor. Reunia suas últimas energias para chegar ao santuário.
Usaria a magia Hojar e protegeria os guardiões. Rorr-Ma-Hok nunca tocaria
neles! A magia que fizera com a água criara um turbilhão que estava infernizando
os quatro guerreiros, era inofensivo, mas muito desagradável.
O que
ela não sabia era que Rorr-Ma-Hok estava com seus homens bem perto e testemunhara
tudo. Montado em seu cavalo ele sorriu ao ver a cena ao longe. Seu rosto envelhecido
era emoldurado pela cabeleira cinza e escassa que caía em parte deste. Seu
corpo estava recoberto de Sartamut, cada uma com uma função mágica diferente.
Seus olhos esbranquiçados se estreitaram ao vê-la executar a magia e fugir.
- Elfazinha
traiçoeira... - sorriu mostrando os dentes afiados e ergueu o punho tatuado
com um pássaro negro - ...mas sou mestre nesse jogo, pequena. - soprou na
tatuagem - Rumatah Sartamut (7)!
Os guerreiros
atrás dele observaram o desenho do pássaro sair de sua pele e transformar-se
numa ave negra que guinchou e saiu voando pelos ares para seguir Amandril.
Ele fez um gesto com o braço e segurou as rédeas de seu cavalo. - Pronto!
Agora é só seguir nossa Oracular. Vamos devagar, no rastro do pássaro... -
foi adiante num ritmo lento.
Mayavashi
encarou Mojad e um sorriso suave despontou em seus lábios.
- Está
acontecendo agora, não é? - Mojad ergueu uma das sobrancelhas dando ares de
incompreensão, mas um fio de suor já havia escorrido da testa há um segundo
atrás - Ele o mandou para que eu não interferisse? Já fiz minha parte, não
é? Afinal ela poderia ter morrido sem companhia. Meu punhal era uma esperança.
Quando Rorr-Ma-Hok ficou tão inteligente, ou a idéia foi sua?
- Não seria
interessante ser inimigo de Dahal, Mayavashi. - falou resumidamente, mas estava
atento aos gestos do guerreiro.
- Do que
tem medo, Mojad? De que eu atenda a um pedido que estrague o plano de vocês
ou de que meu punhal toque em você?
- Não
seria esperto fazer algo desse tipo. - advertiu-o.
- É verdade.
Fique tranqüilo não vou fazer nada disso. - ele virou um pouco o rosto e,
de repente, num gesto rápido, ergueu o braço e sua mão cravou-se no pescoço
de Mojad com tanta força que sufocou seu grito. Em dois segundos ele caiu
de joelhos tentando puxar para longe o braço forte do jovem que o fitava com
um novo brilho no olhar - Foi burro o bastante para entrar nesta cela sozinho,
Mojad! Acreditou que eu confiaria em você porque foi... corajoso!?
Amandril
continuava a correr e já reconhecia a trilha... em pouco tempo estaria ali.
O pássaro negro voava acompanhando toda sua jornada.
Mojad
estava com a pele avermelhada pelo esforço de respirar. Segurava com as duas
mãos o braço de Mayavashi.
- Já lhe
disse que a Tartamut não me deu apenas invulnerabilidade? Ela me deu força
também! - sorriu contemplando o asfixiado carcereiro - Mas nunca precisei
usar antes por causa do punhal... parece que agora tenho um bom uso para ela!
- arremessou Mojad contra a parede perto da janela. Este recebeu o impacto
do golpe e quando foi tentar gritar, Mayavashi colocou a mão aberta no seu
rosto erguendo-o no chão - Um uso realmente muito bom!
Bateu
o outro punho com tal força na abertura da janela que a parede desmoronou
abrindo uma fenda mediana no qual podia passar com certa folga. Agarrou Mojad
e o juntou contra seu corpo como uma marionete.
- Que
está fazendo!? - seu nariz sangrava e arfava aterrado tentando soltar-se dele.
- A regra
da carceragem é: só se sai da cela com o carcereiro... vivo! - sorriu e juntou-o
contra si, comprimindo-o com seus braços num abraço tão violento que Mojad
tinha a sensação de que sua coluna quebraria - Mas não existe nada dizendo
que temos de sair juntos pela porta!
Nesse
minuto a porta se abriu e alguns guerreiros entraram, observando, surpresos,
aquela cena. Mojad gritou por ajuda e Mayavashi lhe sorriu com uma expressão
de triunfo terrível. Seus olhos brilhavam como dois rubis!
- E nada
que diga que o carcereiro tenha de continuar vivo depois de uma queda da torre!
- com um impulso violento jogou-se da torre com Mojad que gritou por toda
a queda de trinta metros.
Amandril
arfava sem fôlego, mas estava chegando lá. Parou um segundo e cambaleou um
pouco. Sabia que os guerreiros que deixou para trás não a haviam seguido,
mas não notou o pássaro.
Mayavashi
conhecia os caminhos das montanhas e seguiu num ritmo acelerado tanto para
se desfazer de possíveis perseguidores - o que duvidava, pois ninguém seria
louco de enfrentá-lo depois do que tinham testemunhado - quanto para chegar
onde queria: na trilha que levava ao santuário. Seu corpo ostentava, além
da Tartamut, o sangue de Mojad.
Em meio
à floresta, depois que a trilha desaparecia, havia uma gigantesca queda d´água
há alguns quilômetros adiante, mas de onde Amandril estava já podia ouvi-la.
Sabia que depois dela existia um profundo vale coberto de pesada vegetação
e lá dentro... lá estava o santuário numa clareira. O pássaro que a acompanhava
já havia avistado a queda e o vale, assim como a clareira. Da mesma forma,
por estar ligado à Sartamut, Rorr-Ma-Hok já havia visto tudo isso em sua mente.
Seu cavalo freou num ímpeto e ele fez um gesto de parada.
- Aquilo
é uma daquelas malditas torres dos elfos-magos. Então ali é o santuário, onde
fazem a tal magia que pode nos deter. - sorriu e ergueu a mão dando o comando
- Ao meu comando, avançar velozmente! Temos uma torre para destruir! Vãoooo!!!
- ele esporou o cavalo que relinchou disparando a toda e os guerreiros urraram
de alegria livres para correr.
O grupo
avançou sem mais cautela descendo por encostas e seguindo trilhas, as mesmas
que Amandril fizera, agora correndo velozmente e quase ficando de quatro como
animais ferozes, pulando por cima de velhos troncos, pedras e galhos que os
atrapalhassem enquanto seu líder galopava a frente.
Quando
Amandril sentiu o troar do grupo se aproximando era tarde demais para fugir
e ao ouvir aquele som que de longe parecia um lamento desconexo, percebeu
que caíra numa armadilha. Não estavam atrás dos guardiões, mas atrás do santuário!
Destruindo esse o caminho estaria livre para pegar o Pergaminho Sher Mor.
Seu desespero cresceu e ela desatou a correr com todas as suas forças restantes.
Sua única esperança era chegar até o santuário e fazer o que tinha se proposto.
Sabia que as chances eram mínimas e quando ouviu há poucos metros um cavalo
vir pelo caminho, percebeu que suas chances eram nulas. Mesmo assim ela continuou
a correr.
- Kenamatsú...
peço ajuda aos anciões do Oráculo. Se destruírem a torre que ouçam o clamor
da antiga construção e saibam que Hudayon precisa de proteção! - continuou
pelo caminho onde já podia ver a queda d´água a distância.
Rorr-Ma-Hok
avistou a elfa correndo e um sorriso de triunfo abriu-se em seu rosto envelhecido.
Sentiu prazer em ver o desespero da corrida daquela que nunca chegaria ao
seu destino. Com um gesto rápido, pegou uma lança leve presa a sua montaria
e mirou.
- Sua
missão chegou ao fim, Oracular! - lançou o objeto e seguiu aceleradamente
para desviar-se de seu alvo assim que foi atingido.
Amandril
sentiu o golpe.
Uma lança
atingiu suas costas em cheio, mas não houve dor, só o impacto como uma pancada
forte que a derrubou no chão. Num segundo não conseguia se mover e ouviu um
cavalo passar, depois diversos pés, todos correndo. Muito barulho, urros e
sons de guerra. Seus olhos foram ficando pesados... a vista escureceu. Sentiu
gosto de sangue na garganta e não conseguia respirar.
Sua mão
segurou algumas folhas secas no chão e então tudo parou.
Quando
ele chegou, o corpo ainda não estava frio. Ao redor se ouvia o som das águas
e mais além algo como um som desconexo de destruição. Ele sabia que tinham
achado a pequena e velha torre da sua visão, aquela que por dentro era enorme
como a tal Ank-Djahar que o ancião falara na lembrança de Amandril. Inclinou-se
e puxou a lança fora para depois virar o corpo. Os olhos estavam fechados
e a pele ainda continha um pouco de cor. Amandril morrera e não fora salvando
os guardiões. Seus pés estavam feridos; com certeza perdera os sapatos no
caminho. No final não se importara com a dor dos cortes desde que chegasse
aonde queria, mas não chegou. Rorr-Ma-Hok conseguiu o que desejava... mas
ainda havia mais. Mayavashi olhou no horizonte o taciturno pássaro a gritar,
provavelmente vigiando tudo enquanto destruíam a torre.
O guerreiro pegou o corpo da jovem e a ergueu nos braços. Agora era muito
leve. Ele a fitou e calculou o caminho a tomar.
- Ainda
não acabou. - deu um impulso e disparou a correr com grande velocidade.
Rorr-Ma-Hok
observava a pequena torre de um andar, que parecia mais um posto de vigia
abandonado, ser demolida pela força destrutiva de seus homens com clavas,
machados e lanças pesadas. Sob os golpes violentos a construção não agüentava
e começava a ruir. Quem observava através de suas fendas, abertas como feridas,
só via uma escuridão implacável como se ali dentro houvesse um poço, mas o
velho guerreiro sabia o que era aquilo: magia do tipo que ele não controlava,
por isso a detestava. A torre viria abaixo, mas seus olhos logo se voltaram
para outro lugar quando ouviu seu pássaro gritar e viu o mesmo que ele.
- Não...!
- virou o cavalo e sem aviso abandonou seus homens para cavalgar em disparada
de volta, seguindo por outra trilha - Mayavashi!
Quando
finalmente parou, pôde ver o mesmo que Amandril vira em sua visão; as árvores
imensas e milenares, as trilhas floridas e mais adiante, bem mais adiante,
a luz.
Caminhou
mais serenamente agora para poder ver tudo e à medida que avançava ele as
via surgirem como se, em meio às outras, elas aparecessem do nada, até que,
ao seu redor somente elas cobrissem a clareira. Era impressionante o efeito
de sua aparição, como se fossem transparentes e à medida que se chegava perto,
se tornavam mais densas, mais reais. Realmente eram muito altas e de uma delicadeza
incrível. Suas folhas eram platinadas e transmitiam muita luz, além de possuírem
formatos diferentes, como se cada árvore fosse única. Essas deviam ser as
árvores de prata de que ouvira falar uma vez.
Mas a
sensação maior era de serenidade e quietude. Uma sensação boa, como se dali
só emanassem pensamentos felizes, plenos de paz e sabedoria. Ele sentiu-se
pequeno naquele momento e agachou-se para colocar o corpo de Amandril apoiado
em suas pernas dobradas. Ambos estavam ali, sob as árvores e foi então que
percebeu as pequenas luzes cintilando ao seu redor e por toda a parte. Nunca
se sentira tão completo - ali ele conseguia perceber coisas que nunca percebera
e compreendeu por fim o que fizera Amandril fazer o que fez.
1-Duenens: pequenos elementares que, juntamente com os Leprechous, compõem
as raças elementares menores estando atrás dos elfos no nível evolutivo.
2- Olehjá: bem-vindo no dialeto do elfos do interior de Mirza.
3-Kenamatsú: " O Senhor de todas as coisas vivas" como os elfos de Mirza conhecem
" Aquele que faz tudo existir", nomeado assim pelos Sherpas.
4-Sunoni: planta medicinal usada para prevenir doenças e manter o organismo
forte na falta de alimentos por tempo prolongado.
5- Canção da Chuva tradicionalmente cantada para as crianças bem pequenas
para não terem medo dela. Os pais explicam que a chuva é como a criança, que
chora quando está zangada ou triste, mas que também chora quando está feliz.
Quando a chuva está muito forte, a senhora chuva está zangada, mas não com
eles e sim com alguma injustiça ou maldade que ela viu alguém fazer. Já a
garoa, é choro de alegria.
6-Amandril significa " Estrela da manhã "
7-Rumatah Sartamut : "Faça o que foi feita para fazer, Sartamut."