ATRAVÉS DO ESPAÇO, percorrendo as longínquas distâncias entre as galáxias e ultrapassando os limites invisíveis das dimensões, lá estão os Círculos.
     Constituídos pelos mundos onde habitam, em sua maioria, as espécies elementares em mutação constante, eles são guardados pelos Sherpas, encarregados de observar e orientar essas raças por vontade "Daquele que tudo faz existir" e o servem com amor incondicional.
     A esses círculos se dá o nome de Círculos dos Mundos Elementais, e foram eles divididos em três, de acordo com a consciência das espécies em relação Àquele que emana a vida. Neles também habitam as raças humanas e estas interagem com as raças élficas e suas variantes.
     Fora dos círculos estão aqueles que temem o que não compreendem, aqueles que temem a chama criadora e assim, vivem nas trevas. Comandados pelo medo eles seguem a diversos senhores como escravos de seu poder. Entre os muitos nomes dos mestres negros se destaca Dahal, "Aquele que forja na escuridão". Banido da convivência com as raças da criação, ele navega entre as dimensões com sua nave-mundo Tawa e almeja o poder dos círculos e tudo que nele habita, mas como não consegue forjar a luz, ele deseja devorá-la com seu poder.
     Para tal forjou durante dez mil anos sua maior e mais nefasta obra: os devoradores de mundos. Bilhões e bilhões de formas destrutivas sem consciência criativa, movidos por uma fome eterna, eles movem-se pelo espaço como um cardume negro consumindo mundos à sua passagem sem nunca parar. Agora, depois de muito viajar, os devoradores se aproximam das esferas dos Círculos e os Sherpas aguardam sua chegada. Eles preparam os mundos elementares para a grande batalha contra "o vazio" forjado por Dahal e assim, iniciam na jornada os escolhidos para invocar o único poder capaz de deter a destruição total: Sher Mor, o Poder Criativo.
      O pergaminho de Sher Mor, capaz de invocar o poder da criação encontra-se protegido pelos seus milenares guardiões num lugar secreto. Contudo, lá a chama negra das trevas já brotou, por isso devem ser resgatados no prazo de cem anos. Deste tempo já decorreram noventa, onde, em Mirza, no Primeiro Círculo dos Mundos Elementais, foi escolhido um Oráculo que abrirá os caminhos para chegar ao Mundo dentro deste Mundo, onde está o pergaminho Sher Mor.
     A criança Benôni foi preparada para a tarefa e aguarda o momento, aonde o novo receptor virá até ela e irá de encontro aos pergaminhos. Agora, decorridos estes noventa anos os Sherpas enviam novamente um dos seus até o povo élfico de Mirza para dar continuidade à preparação que antecederá ao conflito.
     Mirza, como todos os mundos deste círculo é um lugar em transformação, nele habitam elfos e humanos... e como em todos os mundos deste círculo, conflitos surgem inevitavelmente, pois eles ainda não tem a compreensão total do que seja Sher Mor. Contudo, este é um lugar onde existe um mundo dentro de um mundo e, por isso, seu destino foi previsto nos Círculos Superiores há milhares de anos...
     O líder dos élficos, Hien Aquil Fen, cumpriu sua parte ao preparar o caminho para a criança Oráculo Benôni se manifestar e, como manda o costume, cederá seu lugar para um novo imperador depois de trezentos anos de reinado sobre Eldhora. Agora, o jovem Anisuu será Hien entre os élficos de Mirza e sua irmã Ansar, será sua co-regente. Como todos os imperadores ele deve ser iniciado nas artes do Oráculo. Enquanto Ansar aprenderá a arte de proteger a gigantesca fortaleza das águas, criada depois da vinda de Benôni. O jovem Anisuu tem seu primeiro desafio: dominar o uso da lendária espada Ruvak, forjada no Terceiro Círculo dos Mundos Elementais, há trinta mil

    Mor-Yon se manifestou numa forma adequada para conversar com os elementares no Salão dos Três Círculos dos Mundos, construído e controlado com o poder do Oráculo. Por lá, podiam passar de um mundo a outro com a preparação adequada. Mesmo em forma humana, Mor-Yon era alto e parte de seu corpo, dos joelhos para baixo, possuía forma etérea cercada por uma luminosa e delicada névoa. Sua longa túnica branca se estendia até perder-se nessa luz, mas deixava revelar os braços de um tom metalizado, constituídos de membros forjados de uma liga orgânica, assim como a extensão craniana de sua cabeça, revelando ser uma forma originalmente diferente dos elfos, embora com traços faciais similares. Seus olhos emanavam pura luz e contemplavam serenos aqueles que o recebiam com respeito e alegria.
     Entre eles o jovem futuro imperador que, para um humano não passaria de um rapaz de dezesseis anos, delicado, de pele alva, e trajado dentro do cerimonial, ostentava sobre as palmas estendidas na direção do Sherpa, a simbólica Fita do Poder que representava seu título e era oferecida aos que possuíam um conhecimento maior.     Anisuu olhou um pouco nervoso para o grandioso Sherpa e abaixou o rosto quase gaguejando a saudação.
     - No... nôa Shammon, Sherpa Mor-Yon.. - arriscou olhar para o ser de relance, nunca tinha visto um Sherpa de perto. Era majestoso e deslizou pelo recinto como se uma brisa o carregasse, com um sorriso delicado.
     - Nôa Shammon¹ , futuro Hien Anisuu Garib. Luz para todos aqui. Os Sherpas dos Círculos Superiores os saúdam com felicidade.
     - A felicidade é nossa, Sherpa Mor-Yon. - Hien Aquil Fen se adiantou erguendo a mão direita de lado na altura do peito, saudando-o.
     - O tempo é pouco aqui e tudo deve ser preparado para o futuro. Eu vim para ensinar, dessa forma peço o acesso à milenar Ruvak para estar pronta a fim de receber o novo portador.
     - Assim será. - Aquil Fen concordou.

     Eram os últimos dias do Inverno e a Primavera logo estaria ali, pois as árvores já estavam florindo e milhares de botões preparavam-se para abrir num espetáculo de cores e formas. Contudo, nas grandes colinas que cercavam os bosques espessos ao redor da gigantesca torre do palácio de Mirza, ainda se podiam ver os belos arbustos cobertos com as flores vermelhas de Minat que costumavam abrir nos dias frios, enfeitando o vale.
     Foi uma surpresa para o jovem príncipe Anisuu saber que seria ao ar livre que Mor-Yon o ensinaria a usar a Ruvak. Enquanto os dois caminhavam pela colina por um largo trecho o rapaz tentava compreender aquilo. Usava um traje mais simples, mas mantinha as ponteiras douradas que eram usadas para enfeitar as orelhas, dando a ilusão de serem mais pontudas do que eram.
     - Imaginei que me prepararia para utilizar a espada Ruvak em algum lugar especial. Porque estamos aqui, nesta colina? - perguntou por fim.
     - Já viu a espada Ruvak? - Mor-Yon juntou as mãos de forma descontraída enquanto seguiam pela trilha de flores vermelhas.
     - Sim. Algumas vezes Hien Aquil Fen a ostentou em público, mas nunca a toquei.
     - Então nunca a viu em uso, não é? - concluiu.
     - Nunca houve necessidade. Não há conflitos aqui a centenas de anos. Mesmo os humanos aprenderam a conviver conosco bem e vice-versa. - tentava parecer bem sério, mas desconcertou-se quando o Sherpa lhe abriu um sorriso curioso arqueando uma das sobrancelhas.
     - É o que lhe parece?
     -... não é assim? - revelou um olhar ingênuo.
     - Uma batalha muitas vezes não é feita de atos, mas de pensamentos. Harmonia nem sempre é sinônimo de paz e compreensão perfeitas. Muito do que é pensado por élficos e homens não é dito e o aparente equilíbrio de um momento oculta os verdadeiros sentimentos, mas é um equilíbrio frágil por este mesmo motivo. - ele ergueu as mãos e enquanto falava, um plasma líquido formou-se como uma esfera entre o espaço de ambas tomando logo a forma de dois corpos, um humano e outro élfico, ambos lutando num conflito simbólico - Quando as situações se tornam extremas, homens e élficos podem revelar o que realmente pensam. Compreende isso?
     - Sim... Aquil Fen me contou há muito tempo, sobre como foi a iniciação de Benôni em Su na Tog. Naquele tempo muitos pareciam não gostar dessa idéia. Mas desde que se tornou o Oráculo nunca houve guerra nem destruição. Ao contrário, tivemos a chance de nos comunicar com os povos dos outros círculos através das passagens que controla e o caminho para o Mundo Interior, onde estão os guardiões de Sher Mor, é protegida por ela. - continuou - Os humanos aprenderam que esse contato é importante para todos, assim poderemos viver melhor. Através da passagem para o mundo interior veio Moraín, o elfo vermelho que vive entre nós e foi sempre um bom amigo.
     - Sim... mas virão outros ainda. - profetizou - Mirza foi concebida para receber os guardiões de Sher Mor, há tempos imemoriais, antes mesmos de vocês estarem neste mundo e com a vinda do Oráculo, a passagem pôde ser aberta aqui. - explicou - Mas dentro deste Mundo Interior também há aqueles que lutam contra os guardiões e ainda ocorrerão muitos fatos que culminarão numa nova jornada para Sher Mor.
     - Os guardiões irão partir daqui?
     - Eles permanecerão onde estão, contudo a responsabilidade sobre Sher Mor para eles está no final. Quando isso ocorrer Mirza estará pronta para lidar com o futuro... e você deve estar apto para reger. - continuou - Deverá ser enviado, em breve, para Nadash, no Segundo Círculo dos Mundos onde estudará em Ank Djahar, a Torre do Conhecimento. Mas antes terá de lidar com a espada Ruvak.
     - Então a guerra de Dahal contra Sher Mor nos atingirá de fato, não é? - falou num tom pensativo e o Sherpa tocou em seu ombro.
     - O conflito sempre existe, Anisuu. A todo o momento o conflito ocorre, seja no interior de cada um, ou entre mundos. Compreender a natureza de um conflito o faz ultrapassá-lo e seguir adiante na jornada. E sua busca por esta compreensão começa com isso... - repentinamente ele gerou um turbilhão de energia de onde se formou a espada Ruvak diante de ambos. Ali, ela permaneceu flutuando.
     - A Ruvak... você a trouxe até aqui! - observou surpreso a antiga espada trabalhada com refinado esmero artesão. Pareceu-lhe mais uma jóia que uma arma. Sua lâmina era toda talhada com padrões florais e seu punho era muito rico em detalhes.
     - Diga-me, jovem Anisuu, o que lhe parece este objeto? - perguntou-lhe por fim.
     - Bem... é...uma espada. Imagino que se deva usá-la como se usaria uma outra qualquer, não? - a fitava um pouco receoso de sua resposta.
     - Entendo... - ele sorriu pensativo - Gostaria de tentar pegá-la? - sugeriu.
     - Sim. - ensaiou um movimento com a mão e assim que tomou coragem fechou-a ao redor do cabo, mas qual não foi sua surpresa ao perceber que não conseguia! - Ah, mas é... é imaterial...não posso contê-la em minha mão! - olhou o mestre com espanto.
     - De fato... você poderá contê-la quando compreender sua essência. Ela não está ao seu alcance, no momento, porque simplesmente não consegue conceber sua natureza. Quando tiver feito isso, a Ruvak estará em suas mãos. - explicou.
     - Mas... como? Quer dizer, como saberei a essência dela? O que significa isso?
     - Cabe a você descobrir como é a espada Ruvak, mas tente começar do modo mais simples, sabe o que significa "Ruvak", não? - deu alguns passos adiante olhando o vale.
     - Sim... - o rapaz buscou na memória este conhecimento.
     - Então, inicie sua meditação por aí. - olhou por cima do ombro, fitando o rapaz, e sua imagem principiou por ficar translúcida. Uma brisa o envolveu - Agora devo partir, mas estarei por perto. - num segundo desapareceu.
     - Ah! Espere! Eu... - ele ficou parado olhando o espaço onde segundos antes o Sherpa estivera. Em seguida virou-se para olhar a espada flutuando no ar, diante dele - Ah, mas que coisa...!E agora? Fico aqui parado no meio do campo olhando para uma espada flutuando na minha frente. Que coisa vexatória! - comentou com um ar passado.
      "A Ruvak o acompanhará, se desejar, e só surgirá quando tentar pegá-la novamente." - o pensamento de Mor-Yon ecoou na mente do jovem que teve um sobressalto.
     - Ainda está aqui Sherpa Mor-Yon!? - seu rosto ficou ruborizado de tanta vergonha.      "Minha mente está com você enquanto aprende jovem Anisuu. Agora busque suas respostas." - concluiu.
     -... si...sim! - olhou para a espada e tentou concentrar-se - Ruvak... - pensou naquele nome - Ruvak significa "mais além"... mas por que esta espada ganhou este nome? Há milhares de anos ela passa de mão em mão e poucos a conhecem de fato. - a fitava como se quisesse extrair seu segredo com o olhar - Terei de usá-la? Vou desembainhá-la para lutar contra Dahal? - aquele pensamento parecia assustador. Como uma espada poderia enfrentar o poder de um ser que forjava trevas, ou mesmo as terríveis criaturas que ele forjava? No entanto, o que mais o incomodava era o fato dela estar inacessível a ele no momento - Mas se não consigo pegá-la é porque ela não é como as outras espadas. A natureza de uma espada é lutar. Não serve para lutar? - pareceu-lhe, então, que ela não era como as outras.
     "E o que presume ser um combate?" - Mor-Yon reverberou em sua mente novamente e o jovem respondeu concentrado.
     - Um confronto... - e continuou -... mas existem muitos tipos de confronto, como o Sherpa mesmo acabou de me falar. Para poder lidar com eles é necessário compreendê-los, como o conflito. - concluiu - Mas onde Ruvak entra nisso? Ela está "mais além" do quê?
     Nesse minuto Anisuu ouviu uma música longínqua e olhou para o declive final da colina onde se encontrava. Ali, longe de suas meditações, um senhor muito idoso ministrava aulas para uma jovenzinha coberta por um capuz que a protegia do frio matinal. Ela tocava uma delicada harpa que além de muito pequena, tinha o formato de um pássaro, mas seu som era impressionante e belíssimo.
     - Um mestre músico ensinando a um aprendiz... - ele reconheceu aquela música instantaneamente - Que música bonita, ela toca muito bem. É uma melodia da antiga Elendil. - sorriu por ouvir aquela beleza. Elendil era o mundo original dos guardiões dos pergaminhos de Sher Mor que depois migraram para o Mundo Interior de Mirza. As músicas de Elendil, se tocadas corretamente, produziam imagens que podiam ser vistas pelos ouvintes. Diziam que imitavam os sons da criação, por isso podiam materializar formas.
     "A criança está sendo preparada para tocar em Gurundel." - Mor-Yon explicou.
     - Ah... já ouvi falar das montanhas de Gurundel e do "ancião" que vive lá. Ela tocará para Gurundel? Deve ser uma harpista excepcional, embora pareça bem pequena. - achou que a menina não deveria ter mais de nove anos.
     "É o destino dela..." - explicou - "... assim como é o seu portar a Ruvak e reger Eldhora. Dois destinos muito semelhantes."
     - Sim... - Anisuu ficou em silêncio observando aquela cena de longe enquanto uma brisa perfumada surgia, estimulada pela música Elendil. Aquela era uma arte muita mais antiga que a própria Ruvak.

     Os dias se passaram enquanto o futuro imperador buscava as respostas para suas perguntas. Havia tomado consciência de que sua busca não era apenas por Ruvak, mas por algo além dela, como sugeria seu nome. Enquanto o morno calor tomava o lugar das frias manhãs, Anisuu observava as flores de Minat serem substituídas por uma gama imensa de outras anunciando a nova estação.
     Das imensas varandas da torre do palácio imperial essa paisagem podia ser contemplada em matizes de verde misturados as copas coloridas de centenárias árvores locais. Contudo, naquela manhã o que retinha o olhar da delicada menina Ansar não eram as flores, mas a expressão concentrada de seu irmão que desde cedo já perambulava pelos imensos corredores dos pavilhões em busca de uma solução invisível. Agora mesmo ele estava nas muradas externas do palácio caminhando num ritmo tranqüilo, como que a matutar em algo e ela o fitava de uma das grandiosas janelas do primeiro andar. Pankoh, que era sua melhor amiga e acompanhante, observava também o príncipe. Podia ver os delicados dedos de Ansar movendo-se nervosamente por sob a transparente manga sobreposta de seu delicado vestido feito em camadas de tecido diáfano, e preso por fitas atadas em laços duplos. Era uma imagem graciosa, ainda mais com as ponteiras de suas orelhas engastadas com borboletas esmaltadas, dando-lhe um toque especial.
     - Está assim há três dias. Andando de um lado para o outro e vez em quando faz a Ruvak aparecer para tentar pegá-la. - comentou por fim.
     - Ele encontrará a resposta, não? - a amiga confiava por demais no talento e poder dos irmãos regentes.
     - Creio nisso... a Ruvak tem seus segredos e Anisuu vai descobri-los. Tem de ser assim, Pankoh. - ela virou-se e sorriu um pouco - O que mais me assusta é saber que nosso aprendizado não é mais apenas para manter a paz, mas sim para enfrentar uma guerra que, um dia virá. - sua expressão delicada tinha uma sombra de angústia.
     - Aonde ele vai? - Pankoh adiantou-se para ver Anisuu desaparecer no ar. Era uma habilidade élfica mantida desde tempos antigos, mas que exigia treino: o deslocamento veloz e silencioso.
     - Toda a tarde vai ao campo e fica lá por horas. Meu irmão falou de uma harpista que toca melodias Elendil, diz que sua música o ajuda a pensar. - suspirou - Precisamos um pouco disso.

     O campo estava mais colorido agora, mas a pequena harpista parecia indiferente àquilo, tocando tranquilamente uma balada que projetava flocos de neve no ar. As tardes ainda eram um pouco frias e ela ainda usava um grande capuz para cobrir a cabeça.
     Quando Anisuu chegou, ficou encantado com os flocos. Nunca se aproximava muito, mas não resistiu à curiosidade de ver de perto a pequena harpista que tocava tão bem.
     - Uma balada de Inverno. - deixou escapar.
     A menina se virou e observou o rapaz élfico de trajes finos e longa trança a brincar com os flocos de neve na palma de sua mão.
     - Sim. O Inverno está indo embora e estas últimas tardes frias me inspiram a tocar esta melodia. - ele ouviu pela primeira vez a voz delicada da menina oculta pelo manto.      - Eu a observo há alguns dias. Está treinando muito, não? Posso? - inclinou-se apontando o chão.
     - Por favor. Tenho praticado muito, sim. É preciso concentração para tocar as melodias de Elendil.
     - Conhece todas? - sentou-se ao seu lado e admirou a pequena harpa Elendil que tinha um delicado brilho de madrepérola.
     - Não todas. Levarei a vida inteira para isso, mas sei tocar muitas e ainda aprenderei mais até estar pronta para me apresentar em Gurundel.
     - Eu conheço algumas que se tocam nas flautas de cristal. Conhece "O Duelo dos Cinco Instrumentos"? Eu sei tocar. - sorriu ao mencionar as flautas capazes de reproduzir o som de vários instrumentos.
     - Sim. Essa é muito difícil, mas a pior é "A Balada do Dia.". - riu por debaixo do capuz.      - É mesmo! Precisa ter o fôlego de um elfo vermelho para tocá-la. Dura um dia inteiro! Há,há,há... - riu também.
     - Quer que eu toque uma música?
     - Por favor.
     - Vou tocar a "Balada da Primavera". - decidiu puxando o capuz para trás e revelando por fim seu rosto. O que o jovem elfo viu foi algo surpreendente para seus olhos. Era uma menina com lindos cabelos dourados presos em quatro tranças curvadas como alças arrematadas nas pontas por laços no alto da cabeça. Pequenas correntes com moedas douradas enfeitavam os lados do penteado e produziam pequeno tilintar quando ela girava a cabeça. Era graciosa... era humana!
     " Mas...é uma humana!" , Anisuu a fitou surpreso enquanto ela começava a tocar e flores surgiam flutuando no ar. Nunca imaginou que pudesse ser uma humana, embora o velho mestre músico o fosse.
     "Está surpreso, Anisuu?" - ele ouviu Mor-Yon falar em sua mente.
     "Sherpa Mor-Yon! Eu.. eu confesso que não imaginei que ela era humana. Como ela pode conhecer tanto sobre Elendil?" - conversavam em silêncio enquanto a menina tocava concentradamente.
     "Porque Elendil não foi feita apenas para os élficos. Tudo que foi criado por "Aquele que tudo faz existir" é para todos em sua criação, não apenas para uns poucos. Por que, afinal, ela não poderia saber? Sua forma não lhe diz muito quem é ou foi. Deve conhecer os viventes por seu interior, Anisuu." - aquela revelação soava profunda em sua mente.
     "Está certo, Mor-Yon. Compreendo o que quer dizer bem, agora. Eu não devo ver as coisas superficialmente. Devo tentar ver o que existe além da aparência física. Não basta ser uma pessoa justa, pois sem noção do que é o todo, não chegarei nem a saber o que é justiça." - falava internamente, quase para si - "Eu não consigo saber o que é a Ruvak porque nem tentei olhá-la realmente."
     - O mais difícil não é tocar. - ela o trouxe de volta de sua introspecção com aquela frase.
     - Hã? - ele a fitou.
     - O mais difícil é usar esta harpa para curar. Sabe o segredo da cura pela música não é esta harpa de Elendil. Ela realmente não faz nada, nem tampouco a música, é a pessoa que ouve. É ela que se cura, pois a música a faz revelar o que há dentro dela, em sua essência. - explicou orgulhosa mostrando a pequena harpa que parecia sorrir, às vezes, com seu enigmático olhar de pássaro.
     - A harpa revela... - ele ficou pensativo e sorriu como se tivesse finalmente matado sua charada - Eu entendi. - deu um pulo do chão e saiu correndo - Tenho de ir agora! Tenho uma coisa importante a fazer!
     - Espere, não falou seu nome. Eu sou Etain! - ela gritou para ele que acenou correndo.
     - Anisuu! - foi a última coisa que disse antes de desaparecer alguns metros a frente. A menina Etain ficou fitando o lugar onde estivera e por fim revelou sua surpresa.
     - O futuro imperador... dos élficos!? - esperava conversar com qualquer um, menos com o futuro Hien de Mirza. Sorriu pensando naquilo.

    Anisuu surgiu novamente num outro ponto do vale, perto de um despenhadeiro e uma brisa bateu em seu rosto.
     - Então... vamos ver. - fechou os olhos e concentrou-se - Venha a mim, Ruvak. - a espada Ruvak materializou-se depressa diante dele e Anisuu estendeu sua mão devagar em sua direção enquanto falava mentalmente para a espada.
     "Agora eu compreendo o que você é. Ruvak não foi feita para combater. A natureza de uma espada comum é lutar, cortar... mas a da Ruvak é revelar, pois não foi forjada para destruir, mas para mostrar..." - sorriu com a idéia - "Seu poder está em... "ver mais além"! É isso!"
     - Você é assim, não é? Você revela as coisas para mim. Pode atravessar todas as coisas sem ferir, apenas revelando? É isso? - enquanto suas mãos se aproximavam, ela ficava mais luminosa.
     Finalmente, num gesto rápido, ele pegou-a e a Ruvak se tornou real em sua mão!
     - Sim!
     "Eu sou a que mostra o que se passa no âmago de todas as coisas vivas. Sou forjada na Luz e pela Luz revelo e compreendo. Use-me com sabedoria e tornar-se-á um com o todo." - a Ruvak apresentou-se ao seu novo senhor. Ele sentiu um imenso poder correr por seu corpo como uma descarga de energia.
     - Eu entendo. - sorriu.
     Instintivamente pegou a espada e a apoiou no chão, cravando sua ponta na terra. Nesse minuto sua mente foi inundada por centenas de imagens e seu corpo experimentou muitas sensações. Flores, árvores, pássaros, insetos, feras, o mar, a terra, Tudo! Tudo podia ser sentido por sua mente, era um turbilhão vertiginoso de informações e emoções.
     - Ah...! Eu... eu posso...sentir... - fechou os olhos embriagado com todas aquelas coisas, aquilo era estonteante - Posso sentir... tudo! A terra, os pássaros, animais... é maravilhoso...!
     "Concentre-se numa coisa só." - ouviu uma poderosa e familiar voz em sua mente.
     - Mor-Yon!? - quando abriu os olhos viu Mor-Yon manifesto com uma ofuscante luz a emanar de seu peito que se irradiava para os lados e parecia ter o formato de grandes asas, mas era energia pura emitida por seu corpo. Ali ele sentiu parte da força do Sherpa. Como seria em sua forma total!? Era incrível!
     - A Ruvak foi feita para revelar e compreender. Agora que entendeu sua função deve aperfeiçoar-se em seu uso. Se conseguir concentrar-se corretamente poderá saber sobre qualquer um em qualquer lugar deste mundo. A Ruvak pode atravessar coisas vivas sem feri-las, apenas para revelar seu interior.
     - Ela pode ferir se usada do modo errado? - perguntou preocupado com as conseqüências de ter algo tão poderoso nas mãos.
     - Em certos casos, é a resistência do indivíduo revelado que pode feri-lo se for muito agressivo... e também pode ferir o portador da Ruvak. Afinal você sentirá o que ele sente, por isso a Ruvak deve ser usada com cuidado.
     - Entendo.
     - Concentre-se em alguém ou algum lugar e procure sentir o ambiente ao redor. A Ruvak lhe revelará o que sente através de seu contado com o planeta.
     - Deixe-me ver... eu...já sei... - lembrou-se da gentil menina da harpa - Posso sentir onde está a menina da harpa? - aquilo era muito novo para ele e sentia-se num estado de espírito entre tenso e eufórico. Fechou os olhos e segurou a espada firme no solo trazendo à lembrança a imagem da menina - Revele-a para mim, Ruvak.
     Um flash, e algo como um raio percorreu seu corpo! Num segundo estava ali e no outro estava observando de algum ponto não definido a imagem da menina Etain, muito assustada cercada por três rapazes que teriam a idade dele aproximadamente. Sentiu seu coração disparado e o medo estampado em sua face delicada.
     - Ah! Mas... ela está com problemas... - um calafrio percorreu seu corpo. Havia uma energia forte de agressividade emanando dos garotos - Está com medo... eu... - num impulso sentiu outro fluxo mais forte, mas desta vez vinha dele mesmo, uma mistura de raiva e urgência apoderou-se de seu corpo e a imagem turvou-se - Eu preciso ajudá-la! Acho que ainda está na colina! -abriu os olhos e girou a espada fazendo-a desaparecer para sair correndo sem esperar nada, nem mesmo uma possível palavra do Sherpa que o observou em silêncio, distanciar-se e desaparecer.
     -... - a luz dos olhos de Mor-Yon serenou e logo ele desapareceu também.
     Quando Anisuu chegou num barranco pode ver Etain brigando na estrada com alguns meninos que tentavam tirar sua harpa. Era a mesma cena que vira, mas agora eles haviam partido para a agressividade física.
     - Ah...! - olhou a cena com tensão contida.
     - Solte a harpa! - ela pediu assustada.
     - Me dá essa coisa feia aqui! - o garoto que parecia o líder arrancou a harpa Elendil das mãos de Etain que gritou agoniada enquanto os outros dois riam e zombavam daquilo.
     - Que instrumento mais bobo! Olha só como é pequeno!
     - Me dê de volta, me dê! - ela pedia com o rosto já úmido pelas lágrimas que desciam depressa.
     - Como podem!? - Anisuu sentiu seu sangue correr depressa no corpo e estava prestes a intervir quando Mor-Yon surgiu diante dele.
     - Deve permanecer aqui.
     - Permanecer!? Mas Sherpa, ela precisa de ajuda! - olhou para o poderoso Sherpa sem saber o que pensar.
     - Não deve interferir. - reafirmou serenamente.
     - Como!? - ele não podia crer no que ouvia.
     - Só lhe é permitido observar, Anisuu.- explicou e calou-se olhando a cena.
     Anisuu direcionou seu olhar para o conflito que se desenrolava, com o coração apertado, a menina parecia sofrer muito com aquela brincadeira de mau gosto e ele percebia que agora não importava se ela era elfa ou humana, era só alguém que precisava de ajuda, mas o Sherpa o impedia de fazer algo!
     - Olha só o que eu faço com sua harpa boba! - o garoto finalmente lançou a Elendil ao chão e a pisoteou com tal força que a arrebentou em duas, fazendo suas cordas saltarem com um som que lembrava um lamento.
     - Não! É uma harpa Elendil... não! - ela cobriu os lábios aterrada enquanto os meninos a soltaram e se puseram a correr pela estrada, afastando-se.
     - Grande coisa. Você se acha melhor que os outros porque toca essa coisa inútil!
     - Isso é pra você saber que não é melhor que a gente! - suas imagens foram sumindo na poeira da estrada enquanto aquelas palavras ecoavam pelo campo.
     -...!!!! - Anisuu tinha os olhos úmidos e seu punho cerrou, tentando conter sua raiva e frustração. Baixou o rosto para que uma lágrima deslizasse por sua delicada face.
     - Ela não se feriu e as crianças já se foram. - foram as únicas palavras do Sherpa.     Anisuu observou Etain na estrada, chorando com os cacos da harpa no chão. Ela tentava recolhe-los como podia usando o manto como recipiente para o antigo instrumento.
     - Como ela não se feriu? Aquela harpa era muito importante para ela! Como deixou que aquilo acontecesse, Sherpa Mor-Yon!? - virou-se e pela primeira vez olhou com indignação para o Sherpa que, para sua surpresa, sorriu-lhe com gentileza.
     - Exatamente porque a harpa era importante demais.
     - Hã!? - ficou ainda mais confuso.
     - Anisuu, ainda é jovem e tem muito que aprender. Se tivesse se concentrado mais teria "ouvido a Ruvak".
     - Ouvido!?...eu... eu a ouvi quando a peguei... -lembrou-se nas palavras emanadas pela Ruvak ao recebê-la pela primeira vez.
     - A Ruvak sempre "fala" com você. Se tivesse observado o que ela lhe mostrava com imparcialidade, teria ouvido que aquilo que acabou de ocorrer estava destinado à criança Etain. - explicou ao jovem - Etain é uma criança de bom coração e talentosa, mas também tem muito orgulho por ser uma harpista. O que ocorreu não foi acaso, ela teve de aprender que, realmente não é superior aos outros e, mesmo que aqueles meninos tenham lhe ensinado isso de maneira cruel, eles cumpriram uma função na ordem de todas as coisas.
     - Na ordem de todas as coisas? - ouvia atento o grande forjador.
     - Tudo tem uma ordem, um ritmo. Aqui e agora você viu isso em ação. A Ruvak foi forjada como parte da ordem por isso ela a conhece. O que aconteceu com Etain a fará crescer e ser humilde, isso a tornará apta a estar em Gurundel. O que é chamado de Bem e Mal são forças que atuam alternadamente. Mesmo quando a luz parece dar lugar às trevas existe luz a seguir. Tudo tem a luz da criação dentro de si e por isso até as trevas carregam luz em seu interior. O mal feito a ela será revertido em bem. - tocou em seu ombro como a consolá-lo - Não tema por Etain... ela está aprendendo, assim como você. A harpa de Elendil pode ser refeita e em tempo ela saberá disso. Ela mesma a reconstruirá.
     - A harpa é como a Ruvak, não? Por isso falou que nossos destinos eram semelhantes. - o rapaz concluiu compreendendo melhor as palavras do Sherpa.
     - Sim... ambas tem a função de "reveladores". - sorriu - Hoje você aprendeu que saber não é obrigatoriamente intervir. Lembre-se: existem momentos para agir e momentos para esperar. Saber o que a Ruvak sabe, faz de você alguém com poder sobre o destino e com responsabilidade para não interferir no que já foi traçado, pois o peso de uma intervenção errada pode ser muito caro para sua existência. Não basta ter boa intenção: tem de saber como e quando usá-la.
     -... - Anisuu observou Etain caminhar pela estrada com os cacos da harpa em seu colo embrulhados no manto - Ela vai ficar bem? - sentiu seu coração apertado.
     - Sim. Agora você deve voltar para o palácio. Seu próximo passo será aprender a ouvir a Ruvak. É um processo que exige disciplina, Anisuu e ainda tem um longo caminho.
     - Eu... eu vou. Nôa Shammon - ele saiu caminhando pelo campo muito pensativo e Mor-Yon o observou sereno.

  - Hoje aprendeu uma lição muito importante. Ainda tem uma longa jornada, Anisuu. Será enviado para Ank-Djahar e lá ficará até estar apto para ser de fato Hien e proteger o caminho para Sher Mor e aqueles que O buscam... - olhou para a jovem que seguia o sentido oposto na trilha em direção as montanhas - E num futuro que a Ruvak não pode lhe dizer... você se encontrará novamente com Etain.
     - Nôa Shammon, jovem Hien Anisuu Garib.
     Sorriu e desapareceu. Agora Anisuu dera o primeiro passo para sua busca do controle da Ruvak e em tempo partiria para Nadash.


1 - Nôa Shammon - expressão usada para saudar pessoas na chegada ou na partida, na linguagem formal élfica. No informal diz-se apenas Shammon.
anos e ninguém melhor que o próprio criador da espada para lhe ensinar como se deve lidar com ela... Sherpa Mor-Yon... o forjador.